segunda-feira , 27 de setembro de 2021

‘A Maior Emissão De Gases Do Efeito Estufa Em Brasília É Veicular’

Secretário de Meio Ambiente antecipa planos para conter a poluição do ar e fala sobre o Programa de Recuperação do Lago Paranoá

Um grande programa de recuperação de áreas degradadas está em curso no Distrito Federal. O foco é um dos principais cartões-postais de Brasília: o Lago Paranoá. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) vem investindo, desde 2019, quase R$ 4 milhões no plantio de mudas de árvores típicas do cerrado nas margens do lago. Os recursos são provenientes do Fundo Único do Meio Ambiente (Funam) e também originários de pagamentos de acórdãos judiciais e termos de ajustamento de conduta (TACs) de moradores responsáveis pelas ocupações irregulares e envolvidos em Ação Civil Pública.

O trabalho está quase concluído no Lago Sul e prevê a recuperação de 75 hectares ao longo das áreas de proteção permanente (APPs), com ações nos 30 metros às margens do espelho d’água. Até agora, já foram plantadas 33 mil mudas. O projeto prevê o total de 40 mil. “Assim que começar o período chuvoso novamente, vamos começar o plantio na Orla Norte, onde serão realizadas ações em 40 hectares”, anuncia o secretário de Meio Ambiente, Sarney Filho.

Em entrevista à Agência Brasília, o gestor também falou sobre recuperação de nascentes para auxiliar na manutenção dos mananciais. “Estamos usando a agrofloresta, aquele sistema que une a floresta à produção, em projetos-pilotos nas bacias do Descoberto e do Paranoá”, diz. “A recomposição de vegetação auxilia na manutenção e recuperação de tais áreas, que são fundamentais para garantir a segurança hídrica no DF.”

Sarney Filho também garantiu que o processo para a contratação de 150 brigadistas florestais já foi iniciado, assim como o trabalho de prevenção às queimadas, como os aceiros. Com isso, o governo espera repetir os bons resultados do ano passado, quando os incêndios florestais, que aumentaram praticamente em todo o país, diminuíram em 50% nas 82 unidades de conservação do DF.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

A Semana do Meio Ambiente é no começo de junho. Qual a importância do tema deste ano, “Restauração dos ecossistemas no mundo”?

“A agrofloresta também pode significar um aporte financeiro para o proprietário a curto prazo”

A ONU vai lançar neste Dia do Meio Ambiente, 5 de junho, o Programa para a Restauração de Ecossistemas 2021-2030. É um chamado à ação em uma plataforma global que reunirá apoio político, pesquisa científica e suporte financeiro para ampliar intensivamente a restauração de ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Nove dos últimos dez anos foram os mais quentes da história em todo o mundo. Com os países cada vez mais sofrendo com as mudanças climáticas, a restauração dos ecossistemas ajuda a mitigar essas mudanças no clima porque diminui a emissão e absorve os gases do efeito estufa. O tema tem tudo a ver com o trabalho que estamos realizando no DF. Aqui em Brasília, nos antecipamos e já estamos fazendo a recuperação do cerrado, na Orla do Lago Paranoá, em áreas de nascentes e implementando os Sistemas Agroflorestais Mecanizados, que conciliam práticas florestais e agrícolas, propiciando a recomposição de áreas. Tudo isso faz com que Brasília saia na frente, sendo um exemplo para o restante do Brasil e para o mundo. O que se faz aqui de inovador tem repercussões no mundo todo.

Como está sendo esse trabalho de recuperação de nascentes?

Estamos fazendo a recomposição de vegetação nativa em 80 hectares de APPs [áreas de preservação permanente] de nascentes, área de recarga hídrica e demais APPs degradadas ou alteradas nas bacias do Rio Descoberto e do Rio Paranoá, para auxiliar na manutenção dos mananciais. A recomposição de vegetação auxilia na manutenção e recuperação de tais áreas, que são fundamentais para garantir a segurança hídrica no Distrito Federal. Para isso, estamos usando a agrofloresta, aquele sistema que une a floresta à produção, em projetos-pilotos em algumas áreas de assentamento e em propriedades agrícolas. Para a recuperação de nascentes, são plantadas árvores, a maioria delas do cerrado, que protegem e induzem a recuperação de nascentes. A agrofloresta também pode significar um aporte financeiro para o proprietário a curto prazo. Por isso, os produtores estão muito motivados, fazendo cursos e buscando cada vez mais essa alternativa que permite a recuperação de áreas degradadas, pois une manutenção e preservação do meio ambiente à produção agrícola .

E a recuperação da Orla do Lago Paranoá?

Há duas frentes de trabalho, uma na Orla do Lago Sul e outra na Orla do Lago Norte, que têm como foco a recuperação de danos nas APPs. Primeiro foi feito um estudo apontando as áreas degradadas que precisavam de uma intervenção. O trabalho prevê recomposição florestal com espécies vegetais [arbóreas, arbustivas e/ou herbáceas] nativas e o monitoramento delas. Na Orla Sul do Lago Paranoá e no braço do Riacho Fundo, o projeto teve início em 2019 e prevê a recuperação de 75 hectares ao longo das APPs, com ações nos 30 metros às margens do espelho d’água. Os recursos destinados ao projeto são na ordem de R$ 2,4 milhões, provenientes do Fundo Único do Meio Ambiente [Funam]. Os valores se referem aos pagamentos de acórdãos judiciais e termos de ajustamento de conduta dos moradores responsáveis pelas ocupações irregulares envolvidos em Ação Civil Pública. Até o presente momento, foram plantadas 33 mil mudas. O projeto prevê o total de 40 mil.

E no Lago Norte?

O diagnóstico está pronto; assim que começar o período chuvoso novamente, vamos começar o plantio. Na Orla Norte, serão realizadas ações de plantio em 40 hectares. A ação terá investimentos de R$ 1,42 milhões de compensação florestal.

O Instituto Brasília Ambiental e a Sema estão desenvolvendo ações para monitorar as capivaras que invadiram a Orla do Lago. Como é esse trabalho?

Capivaras são animais silvestres; dificilmente é possível domesticá-las para conviverem com os humanos. Mas é preciso tomar precauções. Já tivemos registro de acidentes graves. As pessoas precisam saber que as capivaras são animais que ficam agressivos quando têm filhotes, até se afastam do grupo. E, como não há predadores naturais, elas têm se multiplicado. Nós contratamos um estudo para saber quantas capivaras vivem na Orla do Lago, se elas estão com boa saúde, podendo ou não transmitir doenças à população, e quais as medidas que devem ser tomadas para proteger os animais e a população. Esse estudo está sendo elaborado pela Universidade Católica, com previsão de ser concluído em 2022.

O brasiliense tem uma relação de amor com suas áreas verdes… O DF tem 82 unidades de conservação. O que vem sendo feito para melhorar a infraestrutura desses locais?

“No futuro, quando a Central de Triagem, Reciclagem e Comercialização do DF estiver plenamente funcionando, vai ser capaz de gerar dois mil empregos para catadores; hoje, está gerando 700”

Pegamos aqueles parques que são competência do Instituto Brasília Ambiental e usados como área de lazer pela comunidade e fizemos uma força-tarefa para a melhoria desses locais. Brasília não tem praia, e o parque é o ponto de lazer da população. Portanto, a nossa meta é reformar todos os parques de uso da comunidade para dar mais conforto e segurança para a população – porque há algumas unidades de conservação que não têm área de lazer, como Águas Emendadas. Ao todo, 16 parques já estão com a manutenção em dia, como o Parque Ecológico Saburo Onoyama, o de Águas Claras, o Olhos d’Água, o Parque Ecológico das Garças e o Ezechias Heringer.

O GDF tem também outros projetos de manutenção dessas áreas, como o Reviva Parques

Sim, o Reviva Parques é uma continuação do SOS Parques, trabalho que iniciou em 2019 e incitou a elaboração do decreto, que criou mecanismos que permitem a participação de pessoas físicas, empresas e instituições privadas e públicas em iniciativas que visem melhorias nas unidades de conservação, por meio de cooperação público-privada. Agora, a iniciativa privada também vai poder participar das melhorias. A primeira parceria foi no Parque Olhos d’Água, e vamos continuar nas outras unidades. Vamos fazer parcerias onde pudermos, porque os recursos privados suprem a carência de recursos públicos.

Como está o trabalho da Central de Triagem,  Reciclagem e Comercialização do DF, recentemente inaugurada?

Ela já está em funcionamento. No futuro, quando estiver plenamente funcionando – porque agora ainda estamos sofrendo um pouco com as consequências da pandemia –, vai ser capaz de gerar dois mil empregos para catadores; hoje, está gerando 700. E vai ser possível processar cinco mil toneladas de lixo por mês. Hoje, [a unidade] já está processando duas mil toneladas. Ela é importante socialmente e ambientalmente. Uma consequência natural é uma diminuição na pressão sobre o Aterro Sanitário. Quanto mais você recicla, menos se usa o aterro. Foram investidos R$ 21 milhões nessa obra, que é inovadora. Com os novos equipamentos que estão chegando, vai melhorar ainda mais. Vamos ter reciclagem de vidro lá e a reciclagem do plástico em máquinas, que vão aumentar o preço do produto e  melhorar a condição de vida dos catadores, pois a venda vai dar mais lucro.

A seca já começou. Como está o trabalho de prevenção a incêndios florestais? E a contratação dos brigadistas?

R$ 3 milhões serão investidos na contratação de brigadistas florestais

A nossa experiência nos últimos dois anos foi muito importante. No ano passado, enquanto o Brasil quase todo pegou muito mais fogo, nós conseguimos, no “quadradinho”, diminuir 50% em relação ao ano anterior o número de queimadas nas unidades de conservação. Isso aconteceu graças à prevenção, a palavra-chave. Primeiro foi feita a educação ambiental na população. Os aceiros também são muito efetivos, que é quando você corta a vegetação para evitar a passagem do fogo. Você joga uma bituca de cigarro e, se o capim estiver seco, pega fogo e o fogo se espalha. Cortando essa área, você isola e evita o fogo. Também fizemos a queimada prescrita com muito sucesso no ano passado, outro método de prevenção, além dos 145 brigadistas que foram contratados em tempo hábil e que atuaram  junto ao Corpo de Bombeiros do DF, que é uma referência em combate a incêndios florestais.

E esse ano, o que vai ser feito?

Vamos repetir as ações de prevenção e a contratação de brigadistas. Serão investidos R$ 3 milhões para a contratação temporária de 150 brigadistas florestais e R$ 970 mil para aquisição de equipamentos de proteção individual [EPIs] e de ferramentas necessárias para prevenção e combate a incêndios florestais nas unidades de conservação do DF. A contratação dos brigadistas está em andamento, os aceiros começaram a ser feitos pelo Jardim Botânico, e acredito que teremos o mesmo sucesso.

Quais são os maiores desafios do DF na área ambiental nos próximos anos?

No meio ambiente, todas as ações visam ao futuro. Além de todas essas ações de recuperação de nascentes e de áreas degradadas e destinação adequada de resíduos sólidos, nós atualizamos o inventário de mudanças climáticas; com essa atualização, temos um diagnóstico do que precisa ser feito para evitar que essas mudanças se acentuem. E isso tem tudo a ver com o futuro. Nós já sabemos, por exemplo, que a maior emissão de gases do efeito estufa em Brasília é veicular. Então, a mudança do combustível fóssil para um renovável se faz necessária. Para isso estamos buscando caminhos para que essa mudança ocorra, tanto internamente no GDF quanto no transporte público, até que toda a população possa de alguma forma se conscientizar disso. Já estamos elaborando esse plano de adaptação; ele está em consulta pública ainda e, quando estiver pronto, vamos tomar as providências, em conjunto com a sociedade, para que a gente possa encontrar um caminho para que Brasília possa neutralizar suas emissões. É um plano ambicioso, mas é uma meta que deve ser alcançada. Brasília tem que ser um exemplo para o resto do país. Fonte: Gizella Rodrigues, Da Agência Brasília

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