sexta-feira , 7 de maio de 2021

Futebol Feminino cresceu, mas ainda é precário

Atletas precisam driblar a falta de estrutura e o preconceito para manter o sonho de tornarem-se profissionais

 

Por Duane dos Reis

Ser mulher na sociedade brasileira nunca foi das tarefas mais fáceis. Mulher e jogadora de futebol, menos ainda. A falta de estrutura, o preconceito, o amadorismo e a descrença fazem do esporte algo muito diferente daquele vivido pelo sexo oposto. Em Brasília a realidade não é diferente. Celeiro de talentos espetaculares, o Distrito Federal ainda perde para outros estados e países por pura falta de investimento e visibilidade.

 

“Falta tudo, toda a estrutura é improvisada e com base em parcerias instáveis”, lamenta o técnico do time feminino do Ceilândia Esporte Clube, Pablo Rizza. Uma realidade que se estende a grande maioria dos clubes do DF. “Tenho grandes talentos que aceitaram propostas irrisórias em times de outras regiões do Brasil pelo simples fato de lá terem estrutura mínima para apostar no seu sonho em tempo integral”, conta.

Se falta estrutura, falta apoio, falta alimentação, como trabalhar a profissionalização dessas jogadoras? O amadorismo permeia os times femininos porque ao contrário do que acontece no futebol masculino, não há janela de venda de jogadoras e são pouquíssimos os clubes que assinam a carteira de trabalho do seu cartel. Segundo um levantamento da Folha de São Paulo, apenas oito das 52 equipes que fazem parte do Campeonato Brasileiro Feminino têm 100% das suas atletas registradas em carteira.

 

Com isso, a exclusividade aos treinos fica apenas nos sonhos. A maioria das jogadores cumpre jornada dupla, tripla ou até mais, trabalham fora, são mães, estudantes e atletas no tempo que lhes resta. “Não posso dizer a uma mulher que tem contas para pagar que ela precisa abandonar o emprego fixo para se dedicar exclusivamente ao futebol. Primeiro porque os clubes não conseguem cobrir nem o mínimo das despesas dela e segundo porque o esporte ainda não oferece oportunidade de crescimento profissional que compense o risco”, declara Rizza.

 

São raras a exceções. A zagueira Tatiane da Silva Antonio,35 anos, vive exclusivamente do futebol. Mas nem sempre foi assim, o caminho foi duro ela também coloca a falta de estrutura e ausência de divulgação massiva no topo das dificuldades encontradas para manter-se na carreira. “O DF tem excelentes atletas, cenário de grande revelações de base, não é a toa que hoje temos uma Nicoli em Portugal, Maria na Juventus, Victoria Albuquerque no Corinthians, Dani Helena no Flamengo e tantas outras no mercado nacional e Internacional”, comenta. Segundo ela, para melhorar falta apoio da mídia, com mais transmissões ao vivo. “isso ajuda muito na visibilidade da modalidade”.

 

A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Silvana Goellner, doutora e especialista em gênero, esporte e futebol feminino, diz que apesar dos recentes avanços, ainda é precária a estruturação da modalidade no país. “São escassos  os campeonatos, as  contratações das atletas  são efêmeras e, praticamente, inexistem políticas privadas e públicas  direcionadas para o incentivo às meninas e mulheres que desejam praticar esse esporte, seja como participantes eventuais, seja como atletas”, escreveu em artigo acadêmico.

 

Jogadoras e técnicos são unânimes: falta visibilidade na imprensa. “O papel da mídia no crescimento do futebol feminino é enorme. É a lei de mercado, ninguém investe no que não conhece e nem naquilo que não converte evidência para a sua marca”, argumenta Rizza. As necessidades ultrapassam a questão salarial, técnicos, jogadoras e clubes buscam apoio para alimentação, saúde, academia, transporte e vestimenta.

 

Com passagens por times de outros estados e pela seleção brasileira militar, a atacante Melissa Forster Sodré já chegou a desistir do futebol feminino. “As dificuldades são desanimadoras, abandonei o gramado por seis anos e só voltei no ano passado pelo convite do Pablo”, conta ela que formou-se em fisioterapia e atua na área até hoje. Melissa diz que a maior dificuldade é a desvalorização da modalidade. Em termo financeiros a atleta cita a ausência de calendários fixos. “Isso gera interesse dos patrocinadores”, destaca.

 

Nesse contexto, é inevitável comentar o ciclo vicioso de transmitir apenas o futebol masculino e reverberar discurso de desigualdade de gênero tão presente na sociedade brasileira. As barreiras estão se rompendo e o espaço feminino vai aos poucos sendo ocupado. Criada em 1991, a Copa do Mundo de Futebol Feminino só foi transmitida na tv aberta brasileira em 2019. Quase 30 anos de atraso.

 

Candangão

 

O Campeonato Brasiliense de Futebol Feminino ou conhecido popularmente como “Candango Feminino” é o principal torneio de futebol feminino do Distrito Federal brasileiro e teve sua primeira edição em 1997.Até 2016, clube vencedor conquistava um vaga para a Copa do Brasil. A partir de 2017, o melhor clube – que não esteja disputando a Série A1 do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino –  ganha vaga para a Série A2.

 

E no resto do mundo, como vai?

 

Se no Brasil, o futebol feminino ainda dá seus primeiros passos, em outros países o cenário é de igualdade ou até de superioridade da modalidade praticada pelas mulheres. O país do futebol ainda precisa evoluir muito para atingir grandes potências como os Estados Unidos, que são os maiores campeões do Mundial Feminino, com três títulos.

 

 

 

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