Por trás de cada obra existe uma história. No caso da artista plástica Ray di Castro, essa história começou ainda na infância, muito antes das exposições, dos prêmios e do reconhecimento conquistado ao longo de mais de 40 anos de carreira. Integrante da Associação Candanga de Artistas Visuais (ACAV), Ray é uma das vozes que ajudaram a fortalecer a cena cultural brasiliense desde os anos em que a cidade ainda construía sua própria identidade artística.
A ligação com a arte surgiu de forma espontânea. Enquanto outras crianças preenchiam apenas as tarefas escolares, ela transformava livros e cadernos em verdadeiras telas. “Desde criança eu desenhava e pintava todas as partes em branco dos livros. Não havia um centímetro vazio”, relembra.
O talento ganhou força durante a adolescência, quando passou a estudar em uma escola de padres jesuítas, conhecida por valorizar a formação artística.
“Ali mergulhei profundamente na arte. Participava de concursos escolares e comecei a perceber que aquilo fazia parte de quem eu era. ”

Brasília como inspiração
Quando chegou a Brasília, em 1978, aos 21 anos, Ray encontrou uma cidade em construção não apenas física, mas também cultural. Determinada a aperfeiçoar sua técnica, procurou imediatamente um ateliê de pintura, conciliando o trabalho no banco, os cuidados com a família e os estudos artísticos. “Era difícil coordenar tudo isso, mas a paixão falava mais alto”, conta.
Naquele período, as oportunidades de formação ainda eram limitadas. Foi então que encontrou mestres importantes para sua trajetória, como Lourenço de Bem, filho do renomado artista Glênio Bianchetti, e a professora Marlene Godoy.
Brasília logo se transformou em uma fonte inesgotável de inspiração. A arquitetura de Oscar Niemeyer, as linhas modernistas e as histórias dos pioneiros passaram a ocupar espaço central em sua produção artística.
Ao longo dos anos, Ray acompanhou o surgimento de uma geração que ajudou a construir a identidade cultural da capital. Nomes como Nancy Safatle, Nazaré Martins, Rozane Pomitz, Luiz Costa, Toninho de Souza, Omar Franco e Glênio Lima integraram esse movimento que buscava criar uma arte genuinamente brasiliense.
Segundo a artista, a geometria única da cidade e as narrativas dos candangos influenciaram profundamente sua obra, ajudando a construir uma linguagem visual conectada à essência de Brasília.
A força da ACAV
Entre os projetos que mais marcaram sua trajetória está a participação na ACAV, entidade criada para fortalecer o setor e ampliar oportunidades para artistas locais. “A Associação surgiu da necessidade de organizar movimentos permanentes de arte, criar exposições, mostras, cursos e fortalecer uma identidade artística de Brasília”, explica.
Para Ray, o grande mérito da entidade está em promover conexões e manter o circuito cultural da capital ativo. A entidade reúne artistas, ocupa galerias, museus e espaços públicos, além de oferecer palestras, capacitações e intercâmbios que estimulam a produção artística local.
A própria artista atribui parte de suas conquistas à força dessas conexões. “Por meio desses relacionamentos, viajei para vários países, participei de exposições internacionais e conquistei premiações importantes. Por isso sempre digo aos artistas: conectem-se. Conectar-se é a chave para impulsionar uma carreira. ”
Liderança e inspiração
Ao falar sobre Celina Leão, Ray destaca qualidades que vão além da atuação institucional. A artista afirma admirar a capacidade da governadora de tomar decisões difíceis sem perder a sensibilidade humana. “Fui tomada de admiração ao vê-la cancelar uma grande comemoração do aniversário de Brasília diante de circunstâncias desfavoráveis. É preciso coragem para tomar decisões sabendo que haverá críticas e descontentamentos. ”
Mas não é apenas a firmeza que chama sua atenção. “Ela é acessível, lembra o nome das pessoas, compartilha momentos importantes da vida pública com naturalidade e procura entender o que é realmente importante para o Distrito Federal, para as pessoas e para a cultura.” Para Ray, essas características definem uma liderança baseada no serviço ao próximo. “Ela é uma líder servidora.”
Um legado para as próximas gerações
Depois de mais de quatro décadas dedicadas à arte, Ray di Castro acredita que o futuro passa pelo fortalecimento da presença feminina em todos os espaços de poder e criação. Sua mensagem para as novas gerações é clara: “Valorizem as mulheres. Incentivem mulheres na política. Estudem liderança. Tenham metas, pratiquem a ética, promovam a inclusão e conheçam os sonhos das pessoas.”
Ela também defende o diálogo e a humanidade como ferramentas essenciais para quem deseja transformar a sociedade. “Sejam positivos. Não sejam radicais. Sejam humanos.” Palavras que resumem a trajetória de uma artista que ajudou a contar a história de Brasília por meio das cores, das formas e da cultura, deixando um legado que continua inspirando novas gerações.
