Cultura

César Obeid – O poeta que rima saberes e encanta gerações

César Obeid é um nome que pulsa com força e suavidade na literatura brasileira. Nascido em São Paulo, em 1974, ele construiu uma trajetória que une a arte de escrever à de ensinar — seja em salas de aula, palcos, redes sociais ou livros que tocam leitores de todas as idades.

Formado em dramaturgia, César se apaixonou pela literatura de cordel ainda jovem e desde então dedica-se à difusão dessa arte com sensibilidade e criatividade. Com mais de 40 livros publicados, muitos deles premiados e adotados por escolas em todo o país, suas obras já ultrapassaram os 700 mil exemplares vendidos. Seu trabalho valoriza a cultura popular, o ensino da oralidade, o brincar com as palavras — e sempre com um profundo respeito às raízes da tradição brasileira.

Como autor, ele tem uma habilidade rara: transforma histórias em poesia, e poesia em ponte entre gerações. Seus versos rimados trazem elementos do folclore, da cultura africana, das tradições indígenas e das experiências do cotidiano, criando uma literatura que educa, encanta e emociona.

Entre suas obras mais marcantes, destacam-se:

• Minhas Rimas de Cordel: recheada de trava-línguas, adivinhas e poesias lúdicas, é perfeita para crianças em fase de alfabetização.
• Cordelendas – Histórias indígenas em cordel: um mergulho sensível nas lendas e tradições dos povos originários;
• Almanaque da Paz: almanaque da com poemas, contos populares e relatos pessoais sobre a paz;
• Mitos Brasileiros em Cordel: reúne personagens como Curupira, Saci e Iara, numa linguagem acessível e encantadora.
• Cordel África: apresenta, com poesia e respeito, as riquezas da cultura africana e sua influência no Brasil.

Mas César não é apenas autor — é também educador e mestre da palavra. Por meio de cursos online e presenciais, ele compartilha sua experiência com quem deseja aprender a fazer versos, improvisar rimas e trabalhar o cordel em sala de aula. Entre seus cursos mais procurados estão:

• Conexão Poesia de Cordel, que ensina a criar cordéis com autonomia e criatividade;
• O Barbante e a Rima, um curso introdutório com exercícios práticos;
• Como trabalhar a literatura de cordel em sala de aula, pensado especialmente para professores.

Seja nas redes sociais, nas formações que oferece ou nas apresentações poéticas que realiza pelo Brasil, César Obeid mostra que a rima é uma ferramenta poderosa para despertar o interesse pela leitura, valorizar a escuta, promover a empatia e cultivar a identidade cultural.

Quem deseja se aproximar de sua obra pode começar pelos livros indicados para o público infantil — como Minhas Rimas de Cordel ou Cordelendas —, e acompanhar seus conteúdos no site www.cesarobeid.com.br ou no Instagram @cesarobeidoficial.

César Obeid é, acima de tudo, um poeta generoso, que costura saberes com métrica e emoção, e deixa, em cada estrofe, uma semente de encantamento no coração de quem lê ou escuta.

O barulho misterioso

Lembro bem quando neguei dormir na casa da minha avó. Aquela cama que, há poucos anos, tinha o melhor cheiro do mundo, de uma hora para outra começou a criar espinhos na lembrança.
Aos sábados, sempre aos sábados.
Aquele barulho misterioso nunca mais foi embora. Sempre às 04h da manhã.
De sexta para sábado, apenas sons de sapos, grilos e jacus que passeiam pelo telhado.
Na primeira vez em que ouvi o barulho misterioso, quase caí ao pular da cama. Olhei para a janela e só encontrei a escuridão do quintal, que pulsava alegria de dia. Liguei a lanterna do meu celular e nada consegui ver, apenas galhos que faziam a dança do vento. Não dormi mais. O barulho apareceu de novo, meu coração saltou à boca, e corri para o quarto da minha avó.
— Vó, que barulho é esse?
— Não sei, meu filho, eu não escuto nada.
— Mas é alto, vó! Parece um bicho batendo em algo. É estranho! Tenho medo, vó.
— Não ouço nada, filho. Vamos tomar café?
— Já?
— São 5 horas da manhã. Aqui, no sítio, já é hora de levantar. Vamos, meu filho, que o dia será longo.
Essa conversa se repetiu por meses. Eu acordava com os olhos arregalados, não tinha coragem de sair e corria para a cama da minha avó, que não sabia de nada sobre o barulho.
Após conviver com um buraco no estômago, decidi não dormir mais na sua casa.
Mesmo sentindo falta do seu colo e do cheiro da sua cozinha de manhã, estava aliviado por não ter que conviver com o barulho sombrio. Aos sábados, sempre aos sábados.
Até que um dia, tudo mudou. Minha mãe disse que eu teria que dormir lá porque ela precisava viajar, e eu não poderia ficar sozinho.
E lá fui eu.
De dia, minha avó recebeu um grupo de pessoas para dançar. Ela é professora de dança circular. Disse que vai levar um grupo de pessoas para fazer dança circular em Alter do Chão, no Pará.
Minha avó rodou o mundo todo e ainda tem pique para andar muito. A receita? Como ela diz, é comer bem, comer pouco, dormir bem e dançar muito.
Antes de dormir, coloquei o alarme do celular para 03h50 da manhã, deixei uma lanterna potente carregada. Estava pronto para desvendar aquele mistério que ficou comigo anos e anos.
Quando acordei com o alarme do celular às 03h50, bebi água, testei a lanterna. Estava pronto. Agachei na janela do quarto e, exatamente às 4 horas da manhã, o barulho começou. Me arrepiei.
Não precisei voltar no tempo para sentir medo. Naquele começo de dia, estava aterrorizado. Joguei luz pelo quintal. Somente árvores e restos de uma fogueira que fiz com minha avó na noite anterior. Ouvi o barulho misterioso.
O que é isso? O que pode ser isso? Eu já não era um garotinho. Agora poderia enfrentar.
Abri a porta da cozinha, que dava para a parte do quintal de onde vinha o barulho.
Iluminei. Nada de novo vi. Coloquei a lanterna em cima do telhado. Um jacu estava parado, me olhando com seu olho vermelho. Estava imóvel. O tumulto seguia por trás das árvores. Só mais alguns passos, e eu poderia desvendar.
Um alvoroço atrás fez com que eu parasse de andar. Era o jacu, atrás de mim. Como não o ouvi? Jacus, quando voam, são barulhentos demais. O barulho estranho vinha de trás das árvores. A lanterna não poderia desvendar; tinha que atravessar e ver.
Outro som à direita. Era o jacu, também imóvel. Seria a mesma ave? Agora iluminei e encontrei dezenas de jacus, todos quase imóveis, me olhando. Seus pescoços acompanhavam meus passos. Era como se fossem guardiões do barulho assustador.
Resolvi voltar e acordar minha avó. Ela também vai querer saber a origem desse mistério.
Ao entrar no seu quarto, a cama estava vazia. Para onde ela foi?
Ao sair pela porta da cozinha, a legião de jacus estava no chão, parada, dividida ao meio, fazendo uma estrada para eu passar. Não me lembro de ter visto jacus no chão. Sempre ficam nas árvores ou no muro.
Suspirei.
Ao passar pelas árvores, vi uma mulher dançando sozinha, mexendo o corpo com intensidade, fazendo sons com a boca. Era a minha avó.
Senti mais medo ao descobrir que era ela quem fazia o barulho.
Na hora, pensei: como ela fazia esse barulho se, quando eu era criança, estava na cama? Será que minha avó é assombrada.
Quando ela parou de se mexer, com a respiração ofegante, sorriu para mim.
Perguntei como podia fazer o barulho e estar na cama ao mesmo tempo.
Ela me explicou que, quando eu era criança, seu namorado fazia essa dança para ela, todo sábado, às 4h da manhã.
Questionei por que ela nunca me disse nada quando eu ia à sua cama, com medo. Ela pediu desculpas. Disse que minha mãe e minhas tias não aprovavam o namorado, que era muito mais novo do que ela, por isso ela silenciou.
Deixando as lágrimas soltas, contou que ele havia morrido meses antes. Desde então, em sua homenagem, ela passou a fazer essa dança.
Todo sábado, às 04h da manhã.

 

Cordel Rimando o Brasil (sextilha)

Vou falar sobre esta pátria
Com meu verso mais gentil
Que recebe todo o mundo
Ao Brasil dou nota mil,
Misturando lá com cá,
Vou rimar sobre o Brasil.
[…]
No Brasil sempre misturo
A viola e o violão,
O ganzá com berimbau,
Violino com canção.
Eu misturo a capital
Com a vida do sertão.

Brasileiro é povo rico,
Brasileiro é povo pobre,
Mostra sempre a miséria,
Mas a mesma sempre encobre,
Misturando Norte a Sul,
Tudo novo se descobre.
[…]
É Brasil contraditório,
Avenida com favela,
De criança barriguda,
De criança magricela,
De mendigo na calçada,
Do ricaço da novela.

Mas é meu este Brasil,
É só nosso este país,
Entre dores e alegrias,
Nele eu sou sempre aprendiz,
Ao dizer assim: – Brasil!
Eu queria estar feliz.

 

Quem sabe o que é limerique?

Poema tão cheio de pique
Que tem cinco versos
E vivem dispersos
E adoram glamour e chilique.

Em cada estrofe, uma história;
Tão triste, engraçada ou de glória,
Mas sempre ao avesso
Porque não tem preço
Um verso nascido pra glória.

 

Todo mundo quer a paz

Todo mundo quer a paz
E até sabe onde encontrar,
O difícil é que nem sempre
Nós queremos procurar.

Falar mais alto que o outro
É um negócio complicado,
Pois, além de ficar rouco,
deixa o outro irritado.

Assim como o amanhã
Não faz força para nascer,
Sem esforço deixo a paz
No meu peito florescer.

 

Deu a louca nos bichos

O que pode acontecer
Com essa combinação:
Misturar um cavalinho
Com um tal camaleão?
E a pergunta que eu faço,
Me responda, por favor:
Será que o cavaleão
Corre muito e muda a cor?

O coelho ama o pulo,
Rei do rio é o jacaré!
Misturando esses dois,
Já deu o coelharé!
Ou então é o jacarelho
Que é o fruto da mistura.
Como será que esse bicho
Nada e pula nas alturas?

Que engraçado é misturar
Tartaruga com gatinho!
Vira uma gataruga
Ou então um tartatinho?
Seja um, ou seja outro,
Eu não sei no que vai dar,
Não sei se é um bicho ligeiro
Ou se anda devagar.

Imagine uma formiga
Misturada a um elefante:
Vai dar uma elefiga
Ou então um formifante?
Elefiga ou formifante:
Mas que nome pitoresco!
Será que será um bicho
Pequenino ou gigantesco?