Saúde Segurança

Resgate aƩreo do Corpo de Bombeiros salva vidas em menos de 20 minutos no DF

Entre janeiro e junho de 2025, serviço atendeu 356 ocorrências com suporte avançado de vida; agilidade foi decisiva para salvar pacientes como Téo, de 1 ano, e Victor, vítima de politrauma grave

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A vida pode mudar em um sopro e, em casos de emergência, minutos podem ser a diferença entre uma despedida e um recomeço. No Distrito Federal, o serviço aeromédico do Corpo de Bombeiros Militar (CBMDF) tem sido decisivo nessa corrida contra o tempo. Entre janeiro e junho de 2025, o 1º Esquadrão de Aviação Operacional com Suporte Avançado de Vida atendeu 356 ocorrências, com tempo médio de resposta de 17,7 minutos. Em cerca de 66% dos casos, o socorro chegou em menos de 20 minutos.

No primeiro semestre de 2025, o serviço aeromédico do Corpo de Bombeiros atendeu 356 ocorrências, com tempo médio de resposta de 17,7 minutos |Fotos: Geovana Albuquerque/Agência Brasília
No primeiro semestre de 2025, o serviço aeromédico do Corpo de Bombeiros atendeu 356 ocorrências, com tempo médio de resposta de 17,7 minutos |Fotos: Geovana Albuquerque/Agência Brasília

O serviço aeromédico dispõe atualmente de três helicópteros e dois aviões adaptados para atendimento, além de contar com 14 médicos. Todos os operadores de suporte médico, grupo formado por médicos e enfermeiros, passam por treinamento específico para garantir cuidados intensivos imediatos. A tripulação também é composta por piloto, copiloto e tripulante operacional. E as aeronaves são equipadas com todos os dispositivos necessÔrios para atendimentos críticos.

O drama vivido por TĆ©o Zanello Brixi ilustra o quanto a rapidez no socorro pode ser determinante em situaƧƵes crĆ­ticas. Com apenas 1 ano e 9 meses, TĆ©o sobreviveu a um afogamento graƧas Ć  resposta rĆ”pida do resgate aĆ©reo. LuĆ­sa Zanello, 35, mĆ£e da crianƧa que em breve completarĆ” 7 anos, relembra o dia do afogamento do filho. Ela conta que tudo aconteceu muito rĆ”pido. Quando viu o garoto na piscina, roxo e sem respirar, agiu instintivamente e pulou para resgatĆ”-lo. Ainda molhada, correu para ligar para os bombeiros. ā€œEu nem sabia meu nome naquela hora. Só pensei em pedir ajudaā€, lembra. O atendimento foi praticamente imediato.

Enquanto os socorristas atendiam TĆ©o, LuĆ­sa foi orientada a procurar um local onde o helicóptero pudesse pousar. Era Ć©poca de pandemia, poucas casas atenderam, mas os bombeiros decidiram que pousariam na própria rua da casa: ā€œTudo aconteceu em minutos. Vieram os bombeiros, depois o Samu, e o helicóptero pousouā€.

LuĆ­sa Zanello, mĆ£e de TĆ©o, acredita que a resposta rĆ”pida do CBMDF fez diferenƧa no socorro ao filho: ā€œFoi tudo no tempo certo. Foram muitas peƧas que se encaixaram perfeitamenteā€
LuĆ­sa Zanello, mĆ£e de TĆ©o, acredita que a resposta rĆ”pida do CBMDF fez diferenƧa no socorro ao filho: ā€œFoi tudo no tempo certo. Foram muitas peƧas que se encaixaram perfeitamenteā€

Ela lembra que, após cerca de 40 minutos de manobras de ressuscitação, os bombeiros conseguiram identificar um pulso. ā€œQuando perguntaram quantos anos ele tinha e minha irmĆ£ respondeu que faria 2 anos, o bombeiro disse: ā€˜Pode deixar que ele vai fazer 2 anosā€™ā€, conta, emocionada.

Para a enfermeira de voo do Samu, MƓnica Ortolan, o atendimento do TƩo foi um caso que a marcou profundamente. A equipe conseguiu pousar com tranquilidade, pois a Ɣrea era ampla e permitia manobras seguras. Eles jƔ sabiam do que se tratava e embarcaram com todos os equipamentos adequados.

Teo foi levado ao Hospital de Base com o pai, acompanhado pelo médico e pela equipe que estava no helicóptero. Ao chegar, foi direto para a sala vermelha e, pouco depois, encaminhado à UTI. Luísa foi avisada de que o estado dele era gravíssimo e a criança poderia ter sequelas. Quando foi extubado, Teo reconheceu a mãe. Esse foi o primeiro grande sinal de que o pior havia passado. 

LuĆ­sa Ć© categórica ao dizer que a resposta rĆ”pida fez toda a diferenƧa: ā€œSe qualquer parte disso tivesse sido diferente, talvez nĆ£o tivesse dado certoā€. Ela destaca a precisĆ£o dos bombeiros, a chegada em poucos minutos, o transporte aĆ©reo, o atendimento do mĆ©dico no local e o encaminhamento imediato ao hospital: ā€œFoi tudo no tempo certo. Foram muitas peƧas que se encaixaram perfeitamenteā€.

MĆ“nica chegou a visitar TĆ©o no hospital, poucos dias depois do resgate, e se emocionou ao vĆŖ-lo sentado na cama, se recuperando. ā€œHoje, ele estĆ” bem, sabe da história e ainda guarda o bolachĆ£o do Samu que dei para eleā€, conta. Recentemente, reencontrou TĆ©o no hangar onde ele aprendeu a identificar os tipos de aeronaves: ā€œTudo isso faz parte da construção do saber dele. Ɖ lindo ver esse reencontro com a vidaā€.

Victor Fonseca e o mƩdico Pierre Novais, do CBMDF, um dos responsƔveis por resgatƔ-lo depois de um acidente na estrada para a Chapada dos Veadeiros, em 2023
Victor Fonseca e o mƩdico Pierre Novais, do CBMDF, um dos responsƔveis por resgatƔ-lo depois de um acidente na estrada para a Chapada dos Veadeiros, em 2023

Renascimento

Victor Fonseca, 36, nasceu duas vezes: a primeira vez foi em BrasĆ­lia e a segunda, no asfalto da estrada para a Chapada dos Veadeiros, após sobreviver a um acidente que quase tirou sua vida. No dia 6 de setembro de 2023, enquanto seguia de moto para o Parque Nacional goiano, um carro fez uma conversĆ£o errada e acabou se chocando violentamente contra o veĆ­culo. ā€œFui esmagado. Tive um politrauma grave, mais de 16 fraturas. A Ćŗnica chance de sobrevivĆŖncia era a aeronaveā€, lembra.

Por sorte, um bombeiro do DF que estava de folga passava pelo local e prestou os primeiros socorros: ā€œEle jĆ” tinha oxĆ­metro, torniquete, atadura… Todo o material. Foi ele quem acionou o resgateā€. A resposta foi rĆ”pida e a equipe do Corpo de Bombeiros chegou de helicóptero em SĆ£o JoĆ£o d’AlianƧa. ā€œPerdi mais de 80% do sangue do corpoā€, revela Victor.

Das 356 ocorrências registradas de janeiro a junho deste ano, 278 resultaram em atendimento efetivo e 78 foram canceladas, principalmente por óbito no local

Ele conta que, no momento do acidente, achou que nĆ£o escaparia. ā€œQuando ouvi uma voz dizendo que era do Corpo de Bombeiros, foi como se acendesse uma luz. Ali, eu pensei: tem chanceā€, recorda. Para ele, a atuação rĆ”pida e precisa da equipe foi determinante para sobreviver. ā€œSem helicóptero, nĆ£o teria dado tempoā€, acredita.

A rapidez do atendimento e a atuação do bombeiro fora de serviƧo foram essenciais para a vida de Victor. O mĆ©dico Pierre Novais, do CBMDF, participou do resgate e relata que, na chegada ao Hospital de Base, o caso foi considerado muito complexo: ā€œFoi um trauma fechado, que Ć© ainda mais grave, e ele sobreviveu. A literatura mĆ©dica mostra que apenas 1% dos pacientes sobrevivem a esse tipo de lesĆ£oā€.

Hoje, Victor encara o acidente como uma segunda chance: ā€œDigo que nasci de novo no dia 6 de setembro de 2023. Vou fazer 37 anos agora e nesses quase dois anos vivi mais do que nos 35 anteriores. Mudei completamente: na cabeƧa, na fĆ©, na famĆ­lia, em tudo. Antes, eu tinha uma vida boa, mas hoje sou mais feliz, mais grato. NĆ£o troco nada disso. Essa Ć© a minha históriaā€.

A enfermeira de voo do Samu, MƓnica Ortolan, reencontrou TƩo no hangar do CBMDF:
A enfermeira de voo do Samu, MĆ“nica Ortolan, reencontrou TĆ©o no hangar do CBMDF: “Hoje, ele estĆ” bem, sabe da história e ainda guarda o bolachĆ£o do Samu que dei para ele”

EstatĆ­sticas

Das 356 ocorrências registradas de janeiro a junho deste ano, 278 resultaram em atendimento efetivo e 78 foram canceladas, principalmente por óbito no local, sendo que as regiões com maior número de acionamentos foram Plano Piloto, Ceilândia e São Sebastião. A faixa etÔria mais atendida foi de 60 a 70 anos, seguida por pacientes com mais de 80 anos e, em terceiro, por vítimas com idade entre 70 a 80 anos. Do total, o sexo masculino representou cerca de 65%. O Hospital de Base foi o principal destino dos pacientes, seguido pelo Hospital Regional da Asa Norte (Hran). 

A principal natureza dos atendimentos foi a parada cardiorespiratória. A taxa de retorno à circulação espontânea (RCE) foi de quase 30%, com 67 pacientes reanimados apenas com manobras de reanimação cardiopulmonar (RCP). Esse índice estÔ alinhado à média global de 29,7% em paradas extra-hospitalares, segundo meta-anÔlise internacional.

O mĆ©dico Pierre Novais, do ServiƧo AeromĆ©dico, explica que a taxa de RCE – ou seja, quando o coração volta a bater após uma parada cardĆ­aca – Ć© um dos indicadores mais importantes de sucesso do atendimento. ā€œFazemos isso com manobras de ressuscitação cardiopulmonar. Comparando com os dados mundiais, percebemos que estamos relativamente bem. Cerca de 30% dos pacientes com parada cardĆ­aca clĆ­nica voltam Ć  circulação espontĆ¢nea com o auxĆ­lio do socorro, e isso nos orgulha muitoā€, destacou. JĆ” nos casos de trauma, o Ć­ndice Ć© bem menor: em torno de 10% tĆŖm retorno Ć  circulação, mas apenas de 1% a 2% tĆŖm alta hospitalar.

Nos casos em que foi necessÔrio o uso do desfibrilador, a taxa de RCE subiu para 38,6%. De acordo com o relatório do CBMDF de ocorrências atendidas pelo serviço aeromédico, esse resultado estÔ dentro da faixa superior dos índices internacionais, que ficam entre 25% a 40%, o que significa que, a cada 2,6 pacientes desfibrilados, um teve a circulação restabelecida.

Ele reforça a importância da parceria com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e destaca que, em muitas situações, uma viatura terrestre disponível numa região administrativa pode ser até mais rÔpida do que o transporte aéreo. Essa integração entre Bombeiros Militares e profissionais do Samu-DF, é uma parceria que completa 15 anos em 2025.

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Por Karol Ribeiro, da Agência Brasília | Edição: Carolina Caraballo